Para Finalizar sobre a China

Na China é quase impossível encontrar Bombas de gasolina, especialmente dentro das cidades. As que existem são todas da SINOPEC, a petrolífera estatal. Em Macau já vimos uma da Shell. Li num jornal local que a SINOPEC encontrou no Norte um jazigo de petróleo com a dimensão de 3 anos de produção do 8º produtor mundial, a Nigéria. Foram portanto 1500 milhões de barris descobertos. Mas portagens há, e com um sistema de "ViaVerde".

Impera ainda o show-off típico do nouveau-riche. Cada empresa ou banco tem de ter um prédio maior que o do vizinho e com um lobby mais luxuoso. Em Shanghai é só neons enormes a passar filmes até em fachadas de grandes edificios, porém ás 22h os neons são apagados porque haveria falta de energia. Os carros de ricos são pretos com vidros fumados (mas não o da frente), á moda dos gangsters.

Political-wash da Monarquia, Mao e Partido Comunista

Comprei na China uma auto-biografia do ultimo imperador Aisin Gioro "Henry" Pu Yi, da dinastia Quing (lido Ching). É ele que é retratado no filme de Bernardo Bertolucii, "O Último Imperador". A autobigrafia parece uma confissão, desde os excessos imperiais (deposto em 1912, corrido da Cidade Proibida em 1921), ao tempo de espera pela eterna restauração da monarquia durante os sucessivos golpes de estado (ainda antes do KMT tomar conta aquilo) e ao constituir uma república fantoche (como presidente) chamada Manchukuo com ajuda dos japoneses. Particularmente interessante esta parte em que a sua total ingenuidade e falta de presença fez com colaborasse numa ocupação China, em que os Japoneses roubaram, mataram e violaram uma terra chinesa durante mais de uma década.

No fim da WWII, com o derrotar dos Japoneses Pu Yi foi para a Russia. Depois de intensa Guerra Civil entre do Partido Comunista e o Kuomitang, o general Chiang Kai-Check fugia para a Formosa (Taiwan) onde foi líder (ou ditador..) até á sua morte em 1976, e Mao Zedong subia ao poder em 1949. Estaline enviou-lhe o Imperador de volta onde este ficou 10 anos a ser reciclado (lavado cerebralmente) num campo de reeducação.

Mais uma vez Pu Yi, ingenuamente, em vez de ser julgado como um (mau e traidor) chefe de Estado foi posto a lavar roupa e a fazer jardinagem enquanto se tornava um homem através das auto-críticas (método infantil mas astuto de reduzir homens a vegetais). O livro acaba com o Pu Yi a ser oficialmente perdoado pelo Estado, a ter conseguido um trabalho e a casar novamente. Passou a ter um cargo como Historiador no Governo.

O filme conta mais ou menos a mesma coisa, mas acaba um pouco antes curiosamente, com Pu Yi vestido com aquela "farda" dos tempos do comunismo, a ir á Cidade Proibida mostrar uma gaiola a um puto visitante. Parece um contínuo meio atrasado mental.

Não é inocente, o filme abafou aquilo que o livro corta abruptamente.

O livro acaba em 1964 e o filme em 1959/60. O que se passou entre 64 e 67 é que interessa. É a Revolução Cultural, a (maior e inexcusável) mancha da ditadura de Mao! Escavando um pouco descobre-se que Pu Yi foi "saneado" por fazer parte dos intelectuais/burgueses e ficou em prisão domiciliária para não ser morto pela Guarda Vermelha, onde morreu deprimido em 1967.

Mao é tido oficialmente hoje em dia como alguém que fez muitas coisas boas e muitas coisas más. A sua figura não é idolatrada como ser supremo, mas como um marco importante da China. A sua cara está en Tian An Men, onde proclamou o governo comunista em 1949, no museu militar tem vários busto dele com Zhou Enlai e outros. Vende-se merchandising dele como há do Che Guevara, relógios, posters, t-shirts (comprei 2) etc.

Lin Biao (traidor que morreu num acidente num HS Trident após fugir num sem combustível) e do "Grupo dos Quatro" (onde estava a Mulher de Mao, Jiang Quing, que se suicidou na prisão) são inexistentes. Sun Yat Sen, o primeiro presidente é o que parece ter mais nome visível.

De certo modo aprecio o que fazem pelo Mao, foi um ditador, cometeu atrocidades por gula do poder ou por ingenuidade de ser um campónio, mas não deixa de ser um grande líder.
Por um lado:
- Perseguição aos intelectuais com "Deixem as flores desabrochar" (tradução livre)
- Grande Passo em Frente => 30 Milhões de mortos
- Revolução Cultural - perseguição e injustiça
Por outro:
- fim de guerras civis intermináveis
- reforma agrária e social com o fim da opressão dos senhores feudais e de guerra
- único e verdadeiro comunista no sentido da palavra

Recomendo a Leitura de:
- qualquer biografia de Mao (escrita no Ocidente, claro)
- "the private life of Chairman Mao" - Dr Li, seu médico pessoal. Relato de dentro, muito criticado na China.
- "Cisnes Selvagens" , romance autobiográfico de 4 gerações de mulheres desde a Monarquia aos tempos actuais.
- Biografia de Pu Yi.
- Ver o "Último Imperador", Oscar de melhor filme.


Comments

Davide said…
Interessante a maneira como descreves a viagem. Parabéns

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