A Goretti

O povo açoriano é de um perfil completamente diferente do madeirense. A quase totalidade das pessoas tem um grau cultural relativamente elevado, mesmo que não tendo estudos superiores, exprimindo com clareza opiniões próprias sobre uma vasta gama de assuntos. São também mais calmos e menos barulhentos que os madeirenses. Não sendo calmeirões, são pessoas que sabem apreciar a vida calma e com qualidade. Por vezes podem passar por "papa-açordas" pelo pouco desenvolvimento (betão) da sua terra. Penso que não serão ambiciosos nem dispõem muito do talento "cigano" para recolherem verbas nem do governo, comissão europeia ou mesmo do turismo. Do prisma do turista, é um povo agradável de se falar e conhecer, de pessoas sérias e honestas e com orgulho no que têm. O show-off é pouco visto na construção de habitações, veículos automóveis, vestir e mesmo no falar. Muita da energia da conspiração é gasta nas querelas entre ilhas. A Terceira é tida como um poço de preguiça e festa, onde chega a haver tolerância de ponto por causa de touradas (mais do tipo largada). São Miguel é visto como o poder central e ditador, mas basicamente as ilhas todas competem entre si. Se numa ilha se anuncia que lá passou uma ventania de 100 km/h, a ilha do lado automaticamente passou também mas a 110.

A Melo Abreu, garrafeira de refrigerantes e cerveja (com accionista madeirense) tem a famosa Kima, a laranjada (semelhante á da ECM, mas mais amarela) e a Cerveja Especial. Tem uma rua desse nome com uma cervejaria no coração de PDL.

A primeira vez que fui aos Açores foi no ano de 1998, tinha acabado de ser eleito o Carlos César. Fui da Madeira na SATA, no mesmo voo foi uma amiga madeirense deslocada como professora na Graciosa. Via Terceira, fui passar uns dias a São Jorge, de onde era um colega meu de faculdade. Terra de boa gente, e gente orgulhosa da sua ilha, visitei a fábrica de queijos (o melhor do país, para mim), bebi angelica, fiz 45 minutos a pé numa fajã, fiz um treino de futebol de 11 na equipa da Urzelina e ainda assisti a uma tourada na Calheta. O Touro é solto no cais, preso por uma corda como se de uma trela se tratasse, mas agarrado pelos populares que o provocam. Quando o touro investe, desatam a correr e atiram-se ao mar se necessário. De vez em quando o touro leva um a mau porto. Ainda hoje se vêem touradas na RTP Açores, na Terceira há praticamente todos os dias durante o verão.

Dessa vez fui passar 2 dias a Ponta Delgada. Tentei apanhar um autocarro turístico para as 7 cidades, mas este nem compareceu no horário afixado. Acabei por pagar 5 contos por um táxi para dar uma volta pelas 7 cidades, a um taxista chamado José Carlos. Era um gajo espectacular, com o qual me ri á grande. Contava que tinha acordado com a mulher que ele trabalhava na praça e ela ficava em casa a tratar dos dois putos. Quando o negócio não estava a render, ele ia casa "tentar fabricar" mais:). As lagoas estavam bem, e o hotel dos franceses já era o fiasco que hoje está cheio de lodo. No fim levou-me a uma tasca que fica junto á entrada da via rápida do lado Este, onde me pagou uma Especial. Ainda hoje conservo o copo.


Em PDL fiquei na pensão da Goretti, uma coisa única. Eram 2 ou 3 contos ao dia, quarto bom, sem WC. Tinha uma sala e cozinha comuns onde havia convívio entre os hóspedes. Lembro-me de assistir lá á derrota do Benfica com o Kaiserslautern na liga de campeões. A própria Goretti trabalhava no seu minimercado da porta a lado, na rua Teófilo Braga. Na cidade já havia a aberração do edifício SolMar na avenida, mas a marina e o parque aquático não. As mudanças avizinham-se rápidas com o aterro das Portas do Mar em contra relógio para as próximas eleições regionais. O centro da cidade continua na mesma, os açorianos não gostam de modernices frívolas e as ruas ainda são de calçada, em excelente estado.

Perto da pensão fica o largo de São Francisco de onde sai a procissão do Santa Cristo. Foi ali que se celebrou a missa do Papa em 1991. Montado o altar junto ao forte, ficaram ali milhares de açorianos. O estádio João Paulo II é na Terceira, o estádio do Santa Clara (de PDL Oeste) é o Municipal de PDL na parte Este da cidade.

Há dias vi a pensão da Goretti, fui lá ás compras no minimercado. Uns pães rasos que comprei lá, juntamente com um ananás, são afinal a iguaria regional o "bolo lêvedo". Confesso que a mim me sabiam a bolo-do-caco de supermercado. A Goretti está mais gorda, com o cabelo loiro, mas o negócio está de pé.

Comments

Acho piada a rivalidade emtre ilhas. Em casa andam à "pancada", mas basta sair dó arquipelago e só falam dos Açores. Acho que no fundo gostam ums dos outros e fazem estas guerrinhas no arquipelago para se entreterem.

Conseguiram arranjar um nome pior que Brisa para os refrigirantes

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